agridoce
[términos de relações e o depois]
a palavra veio à mente hoje cedo, ainda que o assunto tenha sua própria cadeira na sala de estar há mais tempo.
tive duas relações sérias. os dois términos foram extremamente difíceis, mas mais difícil do que o término em si, o sentimento de que a relação estava desandando, e depois a inevitável impressão de que as coisas já haviam acabado e nos restava apenas um título, um comodismo, uma conveniência não tão conveniente assim. eu olhava para nós e via o completo desgaste. conversas, tentativas… muitas. mas o que você faz quando espera um, dois, quatro, seis meses e nada muda? as coisas parecem piorar, na verdade, e nesse processo você só… desiste. e nesse processo de desistência (porque tudo é processo) um conformismo vai nascendo, mas como ele se externaliza já é outra história. existe uma frase que passou a me acompanhar e a cada fase que ela foi presente, a encarava de dois modos: desespero ou resignação. e ela é bastante simples: “não há mais nada que eu possa fazer”.
nos meus vinte e dois anos, eu quis cuspir em cada uma dessas letras e fiz tudo o que pude. no início dos vinte e cinco tive paciência enquanto parecia ser a coisa certa, até essa mesma coisa começar a rastejar nas minhas veias como um veneno. agora, perto dos vinte e seis, eu olho para ela com um suspiro — não sem sentir o ar saindo de mim, não sentindo que é um desastre irremediável e isso é uma ruína absoluta. só a olho da mesma forma que olho o desejo e a neblina que se instala, ambos sentados na mesa quando bem entendem, tomando chá como os velhos amigos que somos, as dualidades que são uma convivência constante.
acontece que demorei quatro meses pra sentir de verdade meu último término. muito disso porque aconteceu de tudo de uma única vez e eu não podia parar e pensar em como estava me sentindo, e só quando as coisas se acalmaram que eu fui tomada por uma sensação de “isso aconteceu”. e dentro desse “isso” tem um mundo de interrogações que eu não tento responder como da primeira vez; eu tinha tantas perguntas e resposta nenhuma, e me revoltava tanto não ter. se tem uma coisa que aprendi nos últimos quatro anos, é que às vezes não importa o motivo, só importa que aconteceu. só importa aquilo que você tem nas mãos, concreto, visível nos próprios olhos, no gosto amargo que fica. isso é resposta o suficiente.
pensando nesse gosto amargo de alguns fins, comecei a procurar uma palavra que traduzisse os processos — se apaixonar, ver as coisas mudarem, entrar em negação, aceitar, terminar, se apaixonar de novo… e lembrei da billie eilish cantando “love is a bittersweet”. agridoce. até a sonoridade me agrada.
apesar de não ter tido nenhum término tranquilo, eu sei que eles existem e nem todo mundo passa/passou por essas fases no fim. então comecei a me perguntar: como as outras enfrentam o fim das relações sáficas/lésbicas? todo mundo sofre muito? e em qual parte isso dói mais? pras mulheres que se relacionam também com homens, tem uma diferença ao terminar? e o que fiz com isso foi perguntar pra quem podia responder. recebi as seguintes respostas:
sinto que nas relações com mulheres tive mais conexão, companheirismo e cuidado mútuo, então em alguns casos sofri muito e em outros foram tão amigáveis que mesmo sentindo falta dos bons momentos não cheguei a sofrer.
sofri muito no primeiro, mas o segundo foi mais tranquilo […] terminamos em bons termos, mas acho que foi questão de maturidade também.
depende... meu primeiro relacionamento sério com mulher acabou em bons termos e somos amigas ainda, mas meu segundo com mulher eu sofri de um jeito que nunca tinha sofrido antes, de cair num episódio depressivo grave com internação e tudo. mas com homens eu só sofri bastante nos 2 de adolescência antes das mulheres, mas acho que era pela idade. agora adulta quando termino alguma relação com homem eu tenho ali minhas duas semanas de luto e chororô, mas passa muito rápido e vira raiva e depois desprezo/indiferença/arrependimento. mas com mulher sofro mais intensamente e por meses. uma coisa que eu percebi é que por mais que nos relacionamentos com mulheres que sofri muito, mesmo que ela tenha dado os vacilos dela e eu os meus, teve muito amor também enquanto estávamos juntas. só tive UMA relação com homem que tbm sofri muito (mas amadureci muito na forma que me relaciono hoje em dia e sofri por muito tempo, mas era porque ele era realmente um ponto fora da curva dos homens que já me relacionei e que escuto falar, tanto que dele só tenho elogios e boas recordações. mas com exceção dele, doeu igual o inferno só com mulheres.
esse diz tudo. na mesma medida em que há muita dor depois, há muito amor enquanto acontece, e acho que é um sentimento específico que partilhamos umas com as outras, um carinho que realmente arde de uma forma singular.
Acho que de certa maneira, sem generalizar também, as mulheres entre si tendem a desenvolver vínculos mais profundos e intimistas. Acho que isso termina intensificando o nível da coisa…
eu <3 entrevistar pessoas
então, dentre das muito queridas moots que responderam, é unânime: pra quem se relaciona com homens também, existe mesmo uma diferença. e essa confirmação não veio só de mulheres sáficas, como também do meu melhor amigo, Rafael. e aí eu comecei a ver as coisas de uma forma um pouco mais ampla:
eu entro numa categoria completamente separada com certeza mas queria trazer aqui meu singelo relato bi, porque eu acho que tem uma coisa que pode ser comum pras relações sáficas também. Meus términos com homens sempre foram BEM mais pesados e “dramáticos” que meus términos com mulheres, e eu acho que isso se dá muito pela pressão (e o vencer dessa pressão) heteronormativa, porque quando eu estive em relacionamentos hetero tudo sempre era bem normal tudo era socialmente tranquilo leve e padrão, mas quando tive relacionamentos homo já vem uma carga emocional bem maior por estar junto, às vezes a família não enfrenta bem, têm pessoas ao redor até mesmo em termos de amizade que você sabe que não encaram aquilo muito bem, tem toda a pressão social quando vai sair junto, ter dates, expressar essa relação abertamente de alguma forma, então eu sinto, pelo menos pra mim, que isso sempre criava uma intensidade bem maior em todos os momentos porque nada ali era performático, mas é tipo, as coisas acabam sendo muito mais “genuínas” e isso traz muita intensidade inclusive pro término porque esse é o momento em que culminam todas as situações já de certa forma intensas que permearam o relacionamento. falo pesados e dramáticos no sentido de doer mais, chorar mais, impactar mais, sabe?
é óbvio que não estamos dizendo que relações heterossexuais não são genuínas de forma nenhuma, mas que existe uma convenção ao redor de ser hetero e de se relacionar de uma forma específica e que o próprio casal tenha uma dinâmica já estruturada (tipo quando começam a pergunta quando vocês vão ter filhos, quando vão casar, etc.) e que muita gente não se encaixa mesmo na heterossexualidade, mas é bem mais difícil encontrar um casal hetero (e com os dois sendo heteros) em que essas ou algumas convenções não sejam seguidas. então quando dizemos sobre ser mais genuína, é porque temos mais obstáculos para estarmos juntos e que para que isso aconteça abertamente em todos os nossos ciclos, o que, na verdade, acaba não sendo muito comum pra todo mundo.
temos uma penca de motivos para relações entre mulheres (e relações entre homens) serem mais intensas, como o vínculo, o enfretamento social em conjunto, os contextos diferentes de cada um e de cada casal em particular. existe uma bagagem que fortalece os laços em relações sáficas e aquileanas, e isso se reflete inevitavelmente quando elas acabam. existe um esforço maior, e muitas vezes inimaginável para que aquele amor exista, então é de se esperar que a separação seja igualmente dolorosa — mas na direção contrária. primeiro doemos pra construir e depois doemos em dobro pra desfazer.
o que tornou meu primeiro término bastante difícil de digerir e processar antes que ele acontecesse [em voz alta] de fato, foi um pouco pelas dificuldades de estar com ela. eu não conseguia deixar de sentir que tinha sido uma luta perdida na época, principalmente porque exigiu sacrifícios muito específicos. eu me senti mais vulnerável, inclusive socialmente, quando terminamos. uma coisa meio “aprendi a enfrentar o mundo com ela; e agora?”, muito também por conta da idade e pelo tempo da relação.
todos esses processos são diferentes e para cada um de nós terá uma circunstância. o que podemos concluir é que a pluralidade em ser se estende à pluralidade das relações, da forma e de como sentimos cada uma do início ao fim. e mesmo assim, sempre nos encontraremos no ponto em comum que a intensidade de cada uma causa.
e da mesma forma que dói igual o inferno como disseram, a gente se refaz. a gente vai e enfrenta tudo de novo: medos, inseguranças, pressões sociais. acho que não tem nada que nos impeça de continuar tentando e isso também é resistência.
se você está passando por algo parecido, não se aflija muito não: sinta o que precisar sentir e saiba que depois acontece de novo, com mais experiência, mais juízo, mais consciência de si e do outro. e por favor, não entre em relação pensando que vai acabar ou pensando em quando, só viva ela e pense no que se tem ali, naquele momento. isso é tudo que a gente realmente tem; o resto é hipótese.
agora, sendo muito sincera e indo pra um lado mais pessoal, eu vou precisar de um bom tempo pra conseguir me relacionar de novo. não à toa, fiz o texto que reflete a dualidade de desejar e me sentir meio acanhada mesmo pras coisas que eu me vejo disposta, como um período de hibernação. e ainda tem mesmo algumas que eu vou morrer se não beijar.
vou morrer se eu não beijar essa mulher
tive inúmeras vezes em que o sentido se esvaía. o sentir e o querer davam as mãos e fechavam a porta me deixando do lado de fora — ou pior, me deixando trancada do lado de dentro. um estado apático como um cômodo com luz branca. sem aviso, se ouve uma tranca, a porta abre apenas numa brecha, e tudo o que se faz é congelar por alguns instantes antes que …
e apesar de tudo, eu sei que vou amar de novo. não me iludo com a ideia de o-amor-morreu-em-mim-meu-deus-ninguém-presta. ceder a isso é abdicar de si, e eu me recuso a me abandonar, me recuso a abraçar esse desespero. prefiro abraçar o tempo e acreditar nele. o que muda agora é a forma, a cautela ainda maior, um pingo de desconfiança mas o ímpeto de quem quer ir. eu sempre quero. nunca fujo de uma porta aberta, lembra? e enquanto isso, uma receita, as companhias de anos, amigos, pessoas, lugares e um batente pra me recostar, tanto sabor pra conhecer e tantas doses pra tomar — de tanto copo e tanta gente. agridoce também agrada a língua.
obrigada a todo mundo que participou dessa mini pesquisa e fez esse texto acontecer com muito mais do que poderia a princípio. vocês são demais e merecem todo o amor do mundo <3
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