doses
[inteiras]
tem algo sobre partículas que eu não sei explicar. algo que, com uma fração muito simples, parece se apoderar do corpo numa inteireza nada difícil de traduzir, mais fácil ainda de sentir e mais ainda de se despejar. eu não morro nos amores que me matam em certa medida, eu renasço na possibilidade de ser, no levantar diário e nas reconstruções, na voz de rita e ana e vitória e pedro e zani e joão e outras anas e tantos outros timbres, na inteireza da liberdade e da realidade de ser contemplada por completo; não é bonito? e eu também renasço no desejo.
tenho um amigo que amo muito. é uma das minhas pessoas favoritas no mundo. e numa conversa recente sobre um tópico ainda em construção dentro de mim, ele colocou a seguinte viga: “ser a Beatriz enquanto pessoa inteira no mundo, e não Beatriz parte de alguma construção ou relação estipulada”. foi como se ele me dissesse com todo o carinho que eu posso ser ainda mais eu mesma. mesmo quando achamos que atingimos o nosso máximo (seja ego ou superego), descobrimos que há mais um espaço para nos esparramarmos, que a coisa fluída se espalha além de nós, que nossa limitação é um mero detalhe e depende da perspectiva; como diria minha querida amiga Thais Carvalho Azevedo, “a consciência da nossa própria finitude é o que nos forma”, e foi na consciência de uma finitude que eu descobri um espacinho a mais, talvez jamais infinito porque não sabemos nada sobre ele, tudo que é nosso ou nos rodeia tem um tempo ou espaço de acabar — nem que seja o último dos últimos. mas então, veja só, um espacinho a mais não é um mundo inteiro frente às limitações que acreditávamos ter? ou perante nossa própria finitude?
e volto ao desejo, porque sempre quero mais. minha sina além da escrita é querer; eu não morro por solidão mas definho totalmente sem desejo. isso nos leva de volta às partículas.
eu gosto das construções, dos começos, dos tijolos, dos pisos de taco ou de lajotas vermelhas, aprendi a amá-las com a devoção que tenho a qualquer bom quintal. eu também gosto do ritmo. aprendi a gostar do tempo das coisas, e nesse tempo das coisas existe uma maravilha particular que é: ser o que se é e ainda descobrir mais a ser enquanto as coisas aprendem a ser — e são. enquanto tudo isso, a vida acontece normalmente: estudos, trabalho, projetos, algum respiro (ou meio respiro, considerando a cidade) entre um ônibus e um metrô e uma cafeteria. tantos quilômetros pra afofar um gato por quinze minutos ou pra pedir uma Hilda Hilst (que é caipirinha no sebo) enquanto toca mpb e o cheiro do café se sobrepõe ao dos livros. e enquanto tudo isso, ter a dose de uma imagem na mente, a imagem em si e sua possibilidade, imagens em looping durante os dias, estrofes cravadas na mente e nas pernas que deram origem a outros poemas; acho que eu também morreria sem versos. se o corpo dela os fossem, eu leria em braile com todos os tatos. mas eu gosto das doses, então me contento em ter primeiro olhos e sorriso e uma boca que queira a minha, e tudo em tempo próprio, sem a pressa de consumo que [apesar de urgente] é pura vaidade. lentidão é construção também, e acho que aprendi a gostar da devagareza das coisas. amansa o imediatismo, apesar de eu ter desejado de imediato.
e entre tudo isso, cautela. tanto pra não errar quanto para não atropelar [a si e às coisas] e páginas no caderno revelando vontades e poemas num arquivo decodificando na poética o que tem de mais lésbico e sáfico no mundo: uma dose de devoção. escrevi em segredo em páginas amareladas que tenho pressa mas que nunca gostei de dar pedaços; quem me tiver, terá inteira. não há nada para dar além de uma inteireza, e descobri que dar-se completamente não precisa arrancar nenhum pedaço — não é bonito também? e devoção, qualquer que seja, nunca deveria destruir ninguém. mas as coisas são aquilo em que as transformam; eu mesma aprendi a ser alquimista e reverti os estragos, atravesso portais e fronteiras para não me destruir, e eles me renovam com um respiro fresco que diz: descansa.
e depois chegam as doses. e eu dou doses antes de me dar inteira; doses como promessa de tempo. e doses não são pedaços: pedaço é peça sólida e por vezes quebradiça, doses são os goles que precedem a embriaguez — graças a Dionísio e Safo que a gente se converte em matéria líquida olhando nos olhos um do outro, tantos átomos gritando ao mesmo tempo e timbres sussurrando os risos incontidos. e tudo isso é finitude porque cabe em nós, mas qual o tamanho da nossa finitude? associamos a coisa pouca e pequena, mas se infinito não tem tamanho e finitude é descoberta, qual o limite do finito? cem, mil, um milhão? quanto do infinito pode ser finito? como se mede a inteireza das coisas se não por um lençol ou pela mesa de um bar?
tanto pressentimento pra gente não saber absolutamente nada. e jout jout disse uma vez: “falta você se apaixonar pelo imprevisível”. não há coração despedaçado que não se cole de novo com a possibilidade da vida só por continuar batendo; não há tempo e há todo o tempo todo do mundo porque ele já está acontecendo a cada tecla pressionada, a cada linha corrida e a cada avanço dos teus olhos, esse par que contém também um mundo que eu-autora desconheço. você-leitor me conhece nas linhas e nas coisas que eu finjo não dizer. e concordamos que nessa finitude já somos mais alguma coisa, não? o texto já está acabando; eu já sou um pouquinho mais por tê-lo escrito e você também por ter lido. depois daqui, não sei — o imprevisível me toma de pronto.
o que posso dizer com certeza é que as coisas mudaram tão abruptamente que estou amando elas um pouco mais. toda mudança recente me sussurrou que eu posso ser mais, e por isso minha finitude se mostrou um pouquinho maior, assim como o desejo se mostrou [mais uma vez] vivo e crescente, imparável como o fluxo de consciência que me tomou para si às onze da manhã com o quarto escuro e a cã dormindo nos meus pés.
descobri que a devoção está em se permitir (por si) e saber o quanto e quando também, que essa mesma devoção à vida em si também é uma forma de rebeldia; ter essa sede toda de se deixar acontecer beira o selvagem.
então eu quero tomar doses de hilda e de café e de escritas e leituras e de trivialidades e imprevisibilidades e possibilidades infi-finitas, só para que eu possa me esparramar na vida e no que mais aceitar meu estado vasto e não-se-sabe-o-quanto finito de ser.
texto da thais:
vem algo em breve. vou postar aqui primeiro, mas a íntegra vai para a assinatura mensal do litera:
quero me intoxicar com figos em impresso e ebook
abelhas e outras fatídicas em impresso e ebook
leia a prévia







já devo ter te falado antes, mas repito: leria as palavras que você escreve pelo resto da vida, bê!! você tem uma sensibilidade tão única e faz poesia nas coisas que passam tão despercebidas no cotidiano pra quem não tem olhos de quem vê. eu to relendo abelhas e outras fatídicas pra escrever minha resenha enquanto seu livro novo não chega (porque não consegui me dedicar a isso nas minhas férias do jeito que sinto que seu trabalho merece) e me encanta as poesias dos detalhes. de certa forma, dá pra te ver muito pelas suas palavras, mesmo que narradas por suas personagens.
você me inspira bastante, bê, não só na escrita mas também no modo de levar a vida. fico muito feliz de nesse mundo tão grande ter topado com você e poder te acompanhar (abafa q to sensível hj tá mas é tudo verdade)
aaaaaaaaaaaaaaaaiiii que delícia te ler!!!!! sinto que seu texto fala também sobre o paradoxo maravilhoso da vida: quanto mais a gente se entrega à humildade na nossa pequenez frente ao mundo, mais ele nos engrandece, mais a vida fica densa e intensa e gentil ao mesmo tempo! que coisa mais linda e que honra estar habitando aí dentro das suas palavras!